O verdadeiro luxo não se vê.

O que uma estadia num hotel de cinco estrelas me ensinou sobre Design de Hospitalidade.

Concordo plenamente. Mas reparei que, como acontece em quase todos os artigos sobre tendências, a conversa acaba sempre por ir parar à estética e materiais.

E isso fez-me lembrar uma estadia que tive no Nobu Barcelona, um hotel de 5 estrelas onde, em teoria, tudo deveria proporcionar uma experiência irrepreensível.

Acredito cada vez mais que quem desenha hotelaria tem de viver hotelaria. Não basta desenhar quartos bonitos ou conhecer normas técnicas. É preciso dormir em hotéis, experimentar o spa, a piscina, o ginásio, fazer uma massagem, jantar no restaurante, tomar o pequeno-almoço e observar como as pessoas realmente utilizam os espaços. Só assim percebemos onde um projecto funciona e, mais importante, onde começa a falhar.

Foi exactamente isso que me aconteceu.

A casa de banho do quarto era bonita. Os materiais tinham qualidade, a linguagem era contida e tudo parecia bem resolvido. Entrei no quarto e a primeira impressão foi boa.

O problema apareceu sobretudo nos dias em que tomei banho sem lavar o cabelo.

Foram, provavelmente, dos banhos mais desagradáveis que já tomei num hotel. Não pela qualidade do chuveiro ou da água, mas pela forma como o espaço estava pensado. Sempre que utilizava o chuveiro de mão ficava completamente exposta. O vidro fixo protegia apenas a zona do chuveiro de tecto, enquanto os comandos, o chuveiro de mão e os doseadores de gel e champô estavam todos do lado completamente aberto.

Um banho, que devia ser um momento de conforto e relaxamento, transformava-se num exercício constante para evitar molhar a casa de banho. Ao mesmo tempo, sentia sempre frio porque faltava precisamente o vidro que ajuda a manter o calor e cria aquela sensação de estarmos resguardados.


Numa casa de banho de hotel, espero encontrar um caixote do lixo e um chuveirinho junto à sanita da mesma forma que espero encontrar papel higiénico. Nem penso nisso, porque assumo que vão estar lá.

Só quando faltam é que percebo o impacto que têm, sobretudo para uma mulher, em determinados dias do mês. Nesses momentos, aquilo que deveria ser um gesto simples transforma-se numa sucessão de pequenas adaptações que um hotel de 5 estrelas nunca me deveria obrigar a fazer.

Durante a minha estadia, dei por mim a ir buscar o caixote do lavatório, na outra ponta da casa de banho, e a arrastá-lo para junto da sanita.

São pequenas coisas que deixam memória. Hoje lembro-me muito mais destes momentos do que se a cama era confortável. Possivelmente porque era.

Sempre que faço uma reserva deixo a indicação de que sou vegan. Não porque espere um tratamento especial, mas porque estou, literalmente, a dar informação ao hotel para que me possa proporcionar uma melhor experiência.

Essa informação pode servir para evitarem almofadas de penas ou disponibilizarem um menu de almofadas com alternativas sintéticas, garantirem que existem algumas opções vegetais ao pequeno-almoço ou, simplesmente, não deixarem uma bolacha que sabem, à partida, que eu não vou comer.

Eu própria já lhes dei toda a informação de que precisam. Só falta utilizá-la.

Para mim, luxo também é um restaurante que me pergunta, uma vez, se quero  água com ou sem gás. Aponta ou entrega-me um copo ligeiramente diferente consoante a escolha, nada berrante, nenhum autocolante, nenhuma etiqueta. Um pequeno detalhe que faz com que ninguém precise de me interromper outra vez para perguntar a mesma coisa. Simplesmente voltam a encher o copo com a água que escolhemos. É invisível, e é exactamente por isso que é luxo.

É quando chego ao pequeno-almoço, digo o meu nome ou o número do quarto e alguém já me informa onde está o iogurte de soja e quais os cereais que posso comer, sem eu ter de andar a perguntar, a explicar ou a confirmar novamente que sou vegan. Porque essa informação já existia antes de eu chegar.

Infelizmente, ainda não é esta experiência de utilização que aparece nos relatórios e artigos sobre tendências. Continuamos a falar muito de pedra natural, iluminação e mobiliário, quando são estes pequenos momentos que determinam a forma como nos lembramos de um hotel.

Para mim, o luxo silencioso não é sobre o que se vê.

É chegar a um hotel e sentir que alguém já pensou em mim antes de eu abrir a porta do quarto.

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